sexta-feira, outubro 02, 2026

Perdas

A minha amiga P. perdeu hoje a mãe. Parece inacreditável, porque há pessoas a quem os filhos lhes conferem o estatuto de super-heróis e elas são apenas humanas. Tive oportunidade de revê-la este ano em Abril, depois de 20 anos sem nos vermos, e fico com uma memória muito bonita. Falamos imenso e energia dela estava mais intensa do que nunca, a sabedoria dos anos a dourar-lhe os pensamentos e as palavras. 

Tinha 23 anos quando a conheci, ao participar na mesma competição de canto em que a filha dela também participou. Eu na altura era muito tímido e quase pedia desculpa por existir e ela, depois de eu lhe ter sido apresentado, começou a puxar por mim para eu não me ir abaixo, para dar o meu melhor e acreditar em mim. A minha amizade com a filha dela foi muito próxima até eu ter decido abandonar o mundo do espetáculo. Na altura aquilo dava-me demasiados nervos e ainda foram uns 9 anos. 

Quando nos reencontramos este ano, ela ficou muito feliz por saber de mim, por saber que a vida tinha dado certo e que eu estava finalmente confiante na minha pele, fosse fisicamente ou psicologimente. No caso dela, estava bastante contente que os netos estavam a sair pessoas de bem e que agora que estavam meio crescidos, ela já poderia começar a viver a vida com o marido, fazer umas viagens a dois. É o que tenho mais pena, que isso não se chegue a realizar, parece que ela acabou por se esquecer um bocadinho dela mesma. 

A D. Filomena foi um exemplo, uma vida a ajudar toda a gente, sempre com uma palavra amiga ou palavra de força, a fazer família de quem se cruzava no seu caminho. As filhas e o marido ficam com muitas memórias boas que, espero, ajudem a suavizar a dor do luto. Hoje morreu uma pessoa boa que deixou um rasto de carinho por onde passou, o mesmo carinho com que vai ser lembrada.

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