sábado, novembro 29, 2025

Vazio vs. espaço de reconstrução

A respeito de uma conversa no espaço de comentários do post de 27 de novembro, resolvi isolar o tema porque merece ser recordado mais tarde, já que eu escrevo para me reler no futuro (em estilo diário). Neste caso, o discorrer, tem a ver com o término de uma relação muito intensa. 

Uma rutura produz uma espécie de uma "fenda psíquica". Uma parte do nosso mental sabe que tem de superar a história pela qual passou, a outra continua presa à promessa do que a relação poderia ter sido. No fundo uma parte de nós continua a não conseguir desapegar-se do futuro que não aconteceu, e de repente há um espaço enorme desocupado que não sabemos o que fazer com ele. Este espaço não é apenas um vazio, é a cessação de um modo de existência, onde vivíamos com um espelho dos nossos sentimentos, projetos e anseios (o outro). 

Na ausência do outro, o que passa a existir agora, é o mutismo daquilo que eramos com o outro e o que ainda não sabemos ser sem o outro. O maior engano que podemos ter é o de que este vazio tem de ser preenchido rapidamente. De forma rápida, tal só pode acontecer por meio de (uma ou mais destas coisas) sexo, flirtes, substâncias anestesiantes, saídas constantes, vida social hiperbolizada, redes sociais ao rubro, etc., ou seja, excessos e/ou vícios, que nada mais são que distrações para podermos intitular-nos de felizes e com superação efetuada. Foi aqui que errei nos últimos 10 anos. Desta vez decidi habitar o meu vazio e transformá-lo em solo fértil. 

Aquilo que sentimos como vazio se olhado como espaço de (re)construção do Self é um local excelente para se estar. O facto de estarmos nesse vazio já contraria o substantivo, mesmo que visto como espaço de perda, porque a perda sempre acaba por ser um espaço de encontro ou reencontro; e nós somos em nós mesmos um mundo, de quem o tédio tem a capacidade de extrair, imaginação, criatividade, vontade e desejo. A distração da dor pelos exemplos do parágrafo acima, rouba-nos a solidão e o tédio, fundamentais para o crescimento e ressurgimento. 

Eu tenho estado aí, nesse espaço de (re)construção. Paredes meias com a solidão, mas com um tédio produtivo, e acabei por estar comigo em vez de sozinho. Difícil sem dúvida, mas, de novo repetindo-me, produtivo. Percebi (já não era sem tempo) que o meu padrão de vinculação da última década tinha sido sempre o mesmo entre outras realizações importantes. Adicionalmente este estado de 'solitude' por oposição a 'loneliness' tem sido providencial. E apareceram e reapareceram amigos no processo. 

Se eu fosse uma casa feita de Lego, diria que não perdi a minha identidade enquanto casa, simplesmente as peças que foram completamente desagregadas há um tempo atrás, estão todas a ser remontadas de acordo com um posicionamento mais forte que vai sendo descoberto por experimentação e sem pressa. Vai demorar o tempo que demorar. O foco é em ter a casa permanentemente sólida e futuramente habitada. 

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