A minha mãe tem 84 anos e uma saúde de ferro. Não toma um comprimido para absolutamente nada. Não obstante nem tudo são rosas, duas situações geraram complicações graves que têm sido difíceis de gerir. Quando uma pessoa tem todas as suas capacidades intactas e não pode ter a autonomia a que está habituada a parte psicológica começa a sofrer. Tem sido demasiado tempo de dor e frustração e vejo-a quebrar. A minha mãe foi sempre espinha dorsal da família. O meu pai era o motor, destemido, sempre em movimento, ela a estrutura que mantinha o nave impecavelmente sólida. Assim, nos habituamos a ver a minha mãe: sólida para lá do humanamente possível. De repente, ela parece só humana e até frágil. Tem sido um desafio mantê-la com um bom espírito. Mas tentamos, eu e o meu irmão, e na maioria dos casos até conseguimos. Ela perdeu a paciência de Jó que tinha e não a censuro. Eu já teria perdido a minha logo no início. Ainda tenho muito a aprender com a minha mãe que apesar de tudo não para de nos surpreender. Este país não é para novos.
2 comentários:
Desejo que a tua mãe melhore- sei que os cuidados de saúde em Portugal estão algo periclitantes, dependendo da zona. Os relatos dos meus pais indicam muitas dificuldades no acesso mesmo a exames que, a partir de certa idade e dadas certas condições, seriam essenciais. No entanto, continuam a navegar estoicamente um sistema público que os deixa à espera por meses a anos. E a trabalhar na parte preventiva- que também tem os seus limites. Vivemos mais tempo, precisamos de mais cuidados e o SNS está hoje sujeito a pressões para as quais não foi preparado. Muitos médicos saem ou vão para o privado, não formamos nem retemos novos médicos suficientemente, seja por questões salariais ou condições de trabalho. Quem precisa não tem acompanhamento seguro. Com tantos dados e planeamento, não conseguimos criar um sistema sustentável, para as pessoas. Vou de novo salientar a parte preventiva, onde a medicina - assim como nós, como indivíduos - nos devíamos focar. Mudar o sistema passa também por aí, assim como investir em medicina de vocação para servir as pessoas, recompensada de uma maneira justa - não um saltitar entre as oportunidades que oferecem mais lucros. Quem ganha são os privados, quem perde somos todos nós. Espero que as condições da tua mãe se possam gerir para evitar dor e sofrimento, e que também ela consiga aceitar em paz na sua mente as suas vulnerabilidades: que é humana e frágil, que não tem de ser uma espinha dorsal constantemente. Mente e corpo. Um ajuda o outro.
Obrigado Sérgio, tudo se irá resolver em seu tempo. Mais do que imaginávamos, mas a paz chegará. Assim temos de acreditar.
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