Amanda Todd suicidou-se na semana passada. Como muitos miúdos na Internet (e graúdos também) que dominam as tecnologias, mas que não têm maturidade para compreender que aquilo que publicam na Internet sai fora do seu controle, foi vítima de falta de um erro de julgamento entre o seguro e o arriscado. Isto é, todavia, mais grave pelo tipo de mundo em que vivemos. Pior que o erro de julgamento pessoal, e o julgamento alheio, o preconceito. Que uma miúda que se mostrou nua numa fotografia seja considerada uma puta e seja ostracizada por isso incomoda-me muito. Que um miúdo apanhado a beijar outro miúdo em vídeo seja ostracizado por todos continua a incomodar-me muito. Há algo de errado com a educação que damos aos jovens. Esta geração devia ser mais livre preconceitos, mais aberta de mente e isso não é verdade. Os mais fortes continuam a espezinhar os mais fracos (de físico ou de mente) sempre que podem. É um mundo do qual não me orgulho. Voltando à Amanda, agora que a miúda morreu é só vídeos e perfis de homenagem a aparecer como cogumelos. Gostava de saber para quê? Para descansarmos a nossa consciência e dizermos que somos diferentes? Desafio cada leitor desta mensagem a ter a coragem de manter os olhos abertos e a fazer algo por quem vêem numa situação de inferioridade e expostos a agressores psicológicos ou físicos. Em tempos fui só um miúdo gordo que era gozado até à exaustão e que levava belinhas por isso, ainda por cima com uma voz fina e pequeno de estatura. A natureza foi simpática comigo, ganhei corpo de atleta e um vozeirão. Ganhei confiança e talvez me tenha safado por isso. Mas não me esqueço de onde vim. Algures dentro de mim continua e viver o puto gordo que é solidário com os seus. Quando comecei a ser legitimado pelos "cool e bonitos" não me esqueci qual é o meu "bando". Mas antes do "bando" de cada um somos pessoas. Humanos. Os humanos sabem sobre respeito. Vamos aprender e ensinar esse respeito. Não é fácil. Eu próprio sou ultra radical com os que de algum forma (conscientemente ou inconscientemente) representam a continuidade de valores de diferenciação/estigmatização, com os tradicionalistas, com os que não querem deixar espaço a pessoas e coisas diferentes. Mas há que respirar fundo e ir mais longe. Acho que já me estendi demasiado. Espero que tenha conseguido passar o meu ponto de vista. De boas intenções está o inferno cheio. Há mais mundo que o nosso umbigo.