A minha última relação foi muito intensa. Foi a pessoa de quem mais gostei e aprendi uma coisa altamente significativa: quero muito ser gostado como gostei dele. Deixei de procurar um grande amor, aliás, acho que perdi a capacidade de me dar em total vulnerabilidade e tenho isso a agradecer a esta última aprendizagem. Não perdi a capacidade de me dar e de cuidar de alguém e de ser muito bom para quem me respeite, mas perdi a capacidade de me diluir na ideia de felicidade do outro. Estou muito mais duro e, por isso, mais inacessível. Poderia ser uma pena, mas não é. Atingi um nível muito grande de satisfação com a vida e com aquilo que tenho sozinho. Só posso ser acrescentado, a partir daqui. E se não me acrescenta, não tem lugar na minha vida, porque o resto já tenho, a completude. Sei que, no futuro, já não sofrerei em mim ou por mim. Não me falta nada. Onde não há faltas não há fome, onde não há fome não há insaciedade incontrolável. Posso crescer muito ainda, ser muito mais com alguém que, contudo, nunca me fará sentir vazio na eventualidade de se tornar ausente. A minha casa é de pedra, sólida e íntegra. Pode ficar mais bonita com novos pisos e anexos, mas desfeitas as configurações adicionais, será sempre a casa íntegra. Todo o conforto de que preciso. O que preciso tenho. Tudo o que puder ter a mais é bem vindo, mas não é necessidade.
6 comentários:
Vai com calma, um dia de cada vez. Por vezes pensamos que temos as fortalezas todas e um simples sopro e a porta fica escancarada :) A vida tem destes mistérios.
O que tiver que ser teu, será
Se não conseguirmos estar connosco, e ser felizes connosco, nunca o vamos conseguir ser com outra pessoa.
A vida é sempre um milagre todos os dias. Acho que é o bastante. E tanto que é.
True.
Este post está muito bem escrito e fez-me pensar sobre tantas coisas. Por exemplo, o que queremos do amor? Será que temos, sobre o amor, uma ideia demasiado romantizada, que quiçá não é verdade, e que mais cedo ou mais tarde, acaba por não corresponder àquela pessoa por quem nos relacionamos? Ou nos apaixonamos pela ideia que temos sobre a pessoa, não por ela, como é? Quando tentamos segurar o amor naquele momento em que estamos no topo da escada, porque invariavelmente ele acaba por escapar? Mesmo em casais “sólidos”. O amor não gosta de ser pregado nem fixo, não está quieto: quando atinge um patamar, quer sempre ir para outro. Acho eu. Mas nós não percebemos isso, às vezes, e ficamos fixos na ideia que temos do amor, ou da outra pessoa. Então o que devemos fazer, lá volto eu ao princípio? Perguntar e entender os patamares para onde o amor quer ir? E no processo, estamos a percebermo-nos a nós mesmos, assim como à outra pessoa? O paradoxo (ou talvez não) é que o amor é muito difícil de se racionalizar… porque atuamos, às vezes, de forma tão irracional com ele, quando podemos pensar racionalmente noutras áreas da vida? Se calhar essa é a solução: racionalizar a dois o que parece irracional. E subir mais um patamar no processo. Isto dá pano para mangas…
@Sérgio: Pano para mangas mesmo. Acho que o amor começa por ser um sentimento no início, mas depois é uma ação (até um comportamento) que nasce de uma escolha diária do outro. Em todas as relações acho que nos apaixonamos pela ideia que temos do outro, e com o tempo descobrimos o outro que pode (ou não) corresponder a essa imagem. Quando ele corresponde desde que se cresça em conjunto (mesmo mudando quem se é) está tudo bem diria. Quando não corresponde, e a realidade coloca o nosso equilíbrio em risco, é quando se joga o perigo. Devíamos sair. Mas não saímos por N razões. Sair a tempo poupa a saúde. E a saída tardia vai deixando marcas que são mais ou menos complicadas de sarar. Não obstante, se no ato da cura nos encontrarmos como companhia feliz de nós mesmo, ganhamos a liberdade para viver um amor saudável, da próxima vez que acontecer.
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