sábado, março 14, 2026

Tenho conseguido

Acho que navegamos ao longo da vida por fases muito distintas, felizmente (e às vezes infelizmente), a vida não é um processo linear. Os altos e baixo produzem em nós estados muito distintos e diferentes cérebros têm diferentes ferramentas para os gerir. O meu cérebro é - talvez - mais frágil do que o de muitas pessoas e por isso, ao longo da vida, tenho tido de recorrer a ajuda quando ela é necessária, mas se encararmos o cérebro como uma parte qualquer do corpo (por exemplo, uma articulação) podemos pensar apenas que há alturas em que o cérebro está com uma inflamação e que, passando por um período de medicação, a inflamação passa. Há situações que puxam demasiado pelas articulações, de modo igual há situações que puxam demasiado por um cérebro com algumas debilidades no funcionamento (que segrega umas coisas em demasia e outras em defeito). Com o tempo tenho vindo a perceber que, neste processo de "desinflamação", ganho sempre quando me concentro apenas nas graças e bençãos que tenho recebido, em vez de mergulhar nos estados de me sentir lesado, zangado, vitimizado. Tudo passa nesta vida. A minha mãe gravou um disco para o meu pai há uns 65 anos atrás, uma carta áudio para ele poder ouvir onde estava. E ela terminava com "depois da tempestade vem a bonança meu amor". E depois virá a tempestade novamente e o que aprendemos vai fazer com que apreciemos cada vez mais os tempos de sol e que tenhamos cada vez melhores equipamentos para atravessar as tempestades. O que eu sei é que a esperança e a compaixão são duas coisas que me movem no processo. A compaixão é uma força motriz para se viver melhor, quanto mais compaixão melhor se aceita a vida (funciona para mim) e mais empatia se tem. Claro que isto também ajuda a ter uma noção concreta do que tem valor e ser indiferente ao que não tem, ao que não acrescenta - pessoas e coisas a serem desconsideradas. Tenho deixado "cair" várias pessoas na minha vida nos últimos tempos (de forma deliberada) e outras que deixo simplesmente de as ver e ouvir, mesmo que tenha de lidar com elas. O azedume e a falta de empatia, não cabem mais aqui. Como disse a minha sobrinha Leonor quando tinha 8 anos "pessoas bonitas são aquelas que têm amor no coração". É nesse ato de descoberta e celebração de pessoas especiais e/ou empáticas e/ou respeitadoras (mesmo aquelas que têm gostos e ideias diferentes da minhas, mas que partilham os mesmos valores de abertura ao próximo)  que eu vou fortalecendo esta forma de estar com compaixão. Nós somos o que comemos e também somos o que deixamos estar no nosso contexto. O bom faz-nos melhores. E só posso estar grato.

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