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terça-feira, janeiro 06, 2026

Sortes

Tenho um colega de doutoramento que se tornou um amigo. Cada dia que passa cresço em admiração por ele. À partida não temos muito que ver, ele é um "beto" clássico, com três filhas, cão e casarão. Mas isto são os sinais exteriores; em essência, é um homem generoso, empático, aberto ao mundo, magnânimo.

Em Outubro estava eu no meu pior e (sem me conhecer de lado nenhum) apoiou-me, deu-me um ombro, conselhos. Em contrapartida, nas aulas tento sempre fazer com que ele brilhe, porque não gosta de falar em público eu ajudo-o nos bloqueios: interrompo e começo a falar eu ao mesmo tempo que faço sinais para ele ir ver os apontamentos ou incluo-o nos meus argumentos dizendo que estivemos a falar sobre o assunto durante a noite passada e que foi ele que me deu a ideia para desenvolver.

Tive muita sorte em ter este colega, que sei que me nunca me vai deixar cair se tiver ao alcance dele. Assim como eu nunca o deixarei cair a ele, porque se há coisa que eu tenho é lealdade para com quem me trata bem de forma abnegada. A abnegação emociona-me e pessoas como ele fazem-me sentir humilde. Foi uma sorte que tive tê-lo conhecido.

terça-feira, dezembro 09, 2025

O Phill

O Phill é um amigo escocês, conheci-o através do meu extinto perfil do Instagram (o tal onde eu me expunha bastante fisicamente). Ele começou a comentar as minhas stories não pelo corpo, mas pelo humor e passou a seguir-me. Ele comentava as stories que envolviam graças, trocadilhos, escárnios e, de facto, temos sentidos de humor muito parecidos. Isto aconteceu há cerca de 8 anos. 

O Phill é uma pessoa diferente, o tipo de diferente que eu gosto. Mora nas montanhas escocesas, um pouco isolado e a família tem um negócio de criação de ovelhas. Quando o pai morreu, o Phill teve de colocar vários sonhos de lado - esquecer a sua existência enquanto homem gay -  e assumir um negócio duro, que nem a mãe ou a irmã poderiam sustentar. Às vezes pergunto-me se é isso que torna o Phill tão especial, essa simplicidade campestre, a ausência de pessoas que contaminam. 

Tem uma vida dura, mas está sempre bem disposto e tem sempre uma palavra carinhosa. Eu digo ao Phill que ele é "my pill of joy". Não há uma única conversa ou situação menos boa em que ele não esteja lá a reforçar-me positivamente e a mostrar o que de bom há para alcançar nesta vida e que ele tem fé em mim. A amizade (e até o amor) trata-se disto de fé, de nós acreditarmos no outro com o corpo inteiro. Eu nunca conheci o Phill ao vivo, mas partilhamos um carinho mútuo muito grande, partilhamos coisas importantes ou fazemos piadas politicamente incorretas (como as que fizemos hoje com o funeral da tia do pai dele que morreu aos 103 anos e bebia muito whisky). 

Nas dificuldades de há bem pouco tempo lá esteve o Phill com a sua fé em mim "You got this Sports, remember you are amazing. I am always here for you to remind you. Message me anytime ok?". E claro que não lhe mando mensagens a qualquer hora, porque acho que quem se deita às 22h para começar a trabalhar às 4h da manhã e (seguir até às 19/20h) tem mais que fazer. Mas fico a admirar todas as maravilhosas fotos que ele posta das paisagens onde vive (em especial agora, no rigoroso inverno escocês) e as maravilhosas fotos das ovelhas. Se lhe pergunto como ele está, já sei que a resposta vai ser que está tudo bem (mesmo quando ele e o cão foram atacados por um exame de vespas, disse que a dor passava em 3 ou 4 dias). 

O Phill é um homem das montanhas, um bom homem, rústico, doce e divertido. Eu gosto muito dele, ele inspira-me e faz-me querer ser melhor. É disto que precisamos, boas referências. 

PS. Rosseau dizia que o ser humano é invariavelmente puro, assim nasce e depois é corrompido pela sociedade (em graus diferentes) mediante as suas interações. Acho que grande parte da boa índole do Phill vem daí, do relativo isolamento em que vive. Ou se calhar não, mas seja como for nada muda o que escrevi antes. 

quarta-feira, janeiro 22, 2025

Uma Vogal do Conselho Diretivo

Uma Vogal doo Conselho Diretivo, que conheci aqui no meu trabalho quando voltei depois de 4 anos fora, tem sido uma espécie de anjo da guarda para mim. Foi ela que me empurrou na direção de fazer um doutoramento, tem sido ela a manter o pouco de motivação que consigo ter aqui neste burgo, onde a inteligência ou a liberdade não abundam. 

Tenho zero autonomia com os meus chefes diretos e não concordo com 80% do que eles fazem. Quando trabalho coim ela é uma lufada de ar fresco (apesar dos meus chefes não gostarem muito da forte ligação) e pelo menos saio daqui para outro lugar mental.

domingo, agosto 25, 2024

Fernando

Conheço Fernando há 6 anos. Hoje é o dia de anos dele e ele veio passá-lo comigo, até ao final da tarde, antes de ir para o jantar de família. A sabedoria de que ele é capaz é incrível, acabo por esquecer que ele tem apenas 27 anos. Teve uma vida muito complicada até aos 16 anos e acho que a forma que encontrou para lidar com os seus traumas, acabou por lhe dar muito jogo de cintura, um jogo de cintura que não se importa de partilhar e eu agradeço. 

O Fernando consegue fazer-me pensar em coisas incríveis a respeito do que for que me apoquenta. É alguém que me é muito querido. O Limão adora-o e isso é qualquer coisa mesmo (hoje até lhe lambeu as mãos). Devia falar mais com ele. Ele vive em Brighton o que não facilita, mas tenho de o rentabilizar mais. A madurez dele inspira-me.  É o que precisamos, pessoas que nos inspiram. 

segunda-feira, novembro 13, 2023

A mãe do Beto

Este fim de semana passei-o na casa do Beto e foi o primeiro com a mãe dele presente. O Beto tinha um pedacinho de receio por eu ter uma personalidade forte e a mãe dele também. Achava que mãe faz algumas coisas que me poderiam chatear. Fui de coração aberto, apesar de ter ouvido histórias que me deixaram também com um pé atrás.

No fim de contas não poderia ter sido um fim de semana melhor. A mãe do Beto é uma mulher do povo, trabalhadora, espontânea, sem filtros e aquilo a que os ingleses chamam “feisty”. Mas antes de tudo tenho um enorme respeito por ela. É uma mulher que fez das tripas coração para criar os filhos, quando o marido deixou a casa e a deixou com dois pré-adolescentes, começou a trabalhar a limpar casas, para que pudessem sustentar-se. Quando percebeu que o Beto era bom aluno e que poderia ir mais longe, endividou-se para o mandar para universidade e mantê-lo lá enquanto ele não tivesse acesso à bolsa.

É definitivamente uma leoa, luta ferozmente pelos filhos e isso agrada-me muito. Nota-se a léguas o amor que tem pelo filho e percebo também o enorme amor que ele tem pela mãe. Eles têm uma dinâmica particular que é só deles. Para quem não conhece, parece que se estão sempre a picar, mas é quase como um jogo entre eles. O Beto como é mais tranquilo e a mãe explosiva parece que ele está sempre a levar nas orelhas, mas depois não é assim. Ele é mais subtil a picá-la. Quando a vida se tornou difícil, eram eles dois contra o mundo e a proteger o irmão mais novo, então tornaram-se uma espécie de dupla inseparável.

Quando comecei a namorar o Beto, ele sondou a mãe sobre nós que se mostrou bastante desagradada com o facto de ele poder abandonar a Madeira. Ele ficou bastante nervoso com isso. Não queria fazer a mãe sentir-se abandonada uma segunda vez. Eu percebi, mas também compreendi que poderia ser um problema imenso para nós.

Este fim de semana a mãe do Beto disse-me que esperava que ele viesse para o continente. Disse-me que quer o melhor para o filho e que se ele está bem e feliz, nunca seria capaz de o prender por muito que lhe custe. Disse-me que não era esse tipo de mãe. Que o apoiava no que ele considera que é o melhor para ele.

Para o Beto era muito importante que eu gostasse da mãe dele e que ela gostasse de mim. Quando ele percebeu que eu realmente gostei muito dela e quando ela lhe disse que tinha gostado bastante de mim, parece que lhe saíram 50kg de cima.

A verdade é que não pensei que ia gostar tanto da mãe do Beto (em estado bruto, sem filtros, possessiva com o seu rebento), mas eu também tive uma excelente mãe e valorizo. Não me venham dizer que todas as mães são boas. É quando coisas realmente graves acontecem que se mostra o calibre de cada um e esta mulher lutou sozinha pelos seus dois rapazes e com tudo o que tinha, sem família, sem instrução, mas com muito coração. Talvez proteja os filhos demais, talvez seja muito galinha, mas quer a felicidade de cada um deles de forma tão ativa que me comove. Vamos ver o futuro, para já sou fã. Acho que vai ser uma convivência intensa, mas pacífica.

Gostamos os dois de dançar música dos anos 80 e 90 e por isso ainda iremos sair muitas vezes para um pezinho de dança. A nossa idade também não é assim tão diferente, existem bastantes referências em comum.

quinta-feira, dezembro 22, 2022

A Isabel morreu hoje

Se de facto existe Deus, ele já deve estar arrancar a barba pelo facto da Isabel andar a fumar às escondidas na casa de banho dos arcanjos, de ter feito um decote lá no traje do paraíso e de andar a rir-se dos anjos mal arrumadinhos. Ela gostava de pensar que era uma diaba, mas agora a ver-se ali no paraíso deve ter percebido que diaba era só como Diaba Vermelha pela devoção ao Benfica. Ninguém vai para o Inferno por pregar partidas, por viver a vida os prazeres da vida, vai-se sim por se ter mau coração. Portanto, Deus deve estar a rezar a ele mesmo por ter de levar com frontalidade e a energia da Isabel até à eternidade, mas se ele a observou bem, vai saber que apesar de ela não ser de miminhos, quando ele estiver em baixo, ela vai meter-lhe a mão no ombro e olhar para ele de frente com aquela expressão de olhos que diz "estou aqui se precisares de alguma coisa". 

Quanto aqueles que são da Isabel e que cá ficam, coragem a todos para ultrapassar a privação física. Histórias de certeza não vão faltar para relembrar até ao fim das nossas vidas. A Isabel vai ficar aqui por muito tempo.

sexta-feira, janeiro 28, 2022

O meu chefe

O meu chefe (no atual instituto) é um homem bom e ético.  Disse-me que gostaria de me ter apanhado há uns bons anos atrás quando eu era somente força, criatividade e crença. Tem pena de me ver tocado por um certo amargo que me faz, muitas vezes, agir "olho por olho, dente por dente". Tem sido um apoiante das minhas ideias desde o meu início no serviço e não tem medo de quem quer trabalhar com autonomia. 

Como críticas aponta-me o facto de eu ser muito cru e rematar algumas das minhas intervenções públicas com a visão que tenho da administração pública e apresentar exemplos práticos que a descredibilizam. É um diplomata, um conciliador, crê que mostrar cruamente a verdade negativa antagoniza as pessoas e eu faço-o muitas vezes.  Lamento quando o desiludo nesse sentido. Acho-o um homem brilhante, mas demasiado cordial e isso pode ser uma fraqueza. Já diria a minha mãe que "quando nos baixamos demasiado mostramos as cuecas". Deviam existir mais pessoas como ele, mas quando a maioria não é como ele, ele deveria saber defender-se.  

Disse-me que admira o facto de eu, mesmo sabendo que sairei dentro de pouco tempo, não baixar a qualidade do meu trabalho e até tentar deixar o máximo de propostas para o futuro. Faço-o por ele. Porque ele é decente, porque merece o meu esforço. 

Hoje disse-me também que me acha muito inteligente e que admira o meu espírito independente, e tem pena de que eu esteja sempre pronto a esfregar verdades amargas na cara de quem se porta menos bem. Queria ter-me conhecido noutros tempos, antes de sofrer as agressões pelos vícios administração pública, para que eu fosse mais como ele, mais pacifico. 

Não sei quem tem razão, não sei se é a melhor política ser assim. Sei, contudo, que o admiro como pessoa. A bondade, a verticalidade, o estímulo. Já "rasguei" a direção para o defender, porque achei que alguém tinha de o fazer. Queimei-me eu, mas valeu a pena. Menos um sapo na minha garganta. 

terça-feira, fevereiro 09, 2021

Também temos políticos com dignidade (mesmo que na reforma)

O General Ramalho Eanes foi um homem extraordinariamente importante para a manutenção da estabilidade no país depois da revolução de 1974. Dado o seu carácter discreto nunca reclamou para si essa atenção, como por exemplo Mário Soares.  Foi o único Presidente da República que recusou muitos dos privilégios vitalícios do cargo, assumindo que apenas cumpriu o seu dever como português. 

Mais uma vez, igual a si mesmo, recusou receber a vacina contra o COVID, privilégio dado aos Conselheiros do Estado, dizendo que aguardará a sua vez como cidadão octogenário que é. 

Tenho pena de que Ramalho Eanes seja uma figura um tanto obscura para os portugueses, porque a dignidade e decência também se aprendem por exemplo.  

Jacinda Ardern no seu melhor (aprendam políticos portugueses)

 "I really rebel against this idea that politics has to be a place full of ego and where you're constantly focused on scoring hits against each one another. Yes, we need a robust democracy, but you can be strong, and you can be kind." 


Jacinda Ardern, Primeira Ministra da Nova Zelândia

terça-feira, julho 17, 2018

Pessoas que admiro

No café ao lado do meu trabalho há uma empregada que já não é nova, terá uns 60/62. Quando atentamos a forma como veste ou mesmo como trata os clientes, há algo que a distingue do usual nestes lugares. 

Fiquei a saber que ela foi durante mais de 25 anos contabilista numa empresa que fechou as portas e deixou uma quantidade de pessoas no desemprego. Encontrar trabalho na idade dela provou-se dificílimo, mas como tinha contas para pagar arregaçou as mangas e trabalha um dia inteiro atrás de um balcão a servir. 

Disse-me que não é fácil estar tanto tempo de pé (ao fim de anos a servir ainda lhe custa bastante) e tem muitas saudades do trabalho de papelada. Chega a casa morta, mas com um ordenado. 

Do meu lado só posso ter a maior admiração pelas pessoas que não desistem. E que não sentem que lhes caem os parentes na lama por fazer um trabalho menos qualificado e mais sofrido.