segunda-feira, junho 06, 2022

Se calhar...

Chamaram-me a atenção para o facto de eu querer sempre tudo perfeitinho (ou o mais perfeito possível). Que eu desisto das coisas "maculadas".  Se calhar, é uma hipótese. Lembro-me de ser pequeno e de não querer escrever no reverso da folha do caderno porque ela já estava usada. Mas também me lembro de reciclar peças de mobília, feias, deixadas ao abandono e torná-las coisas bonitas. Talvez o meu problema não seja com as coisas maculadas, mas com as coisas que não sinto terem potencial para voltarem a ser "novas", o que já não é flexível para ganhar uma nova vida. 

quarta-feira, junho 01, 2022

Metade de uma vida

Atingi a idade em que metade da minha vida foi passada sem o meu pai. Porquê escrever hoje sobre ele? Porque é o dia da criança e enquanto fui criança ele não foi bom para mim; fez-me até sofrer bastante. Aos 14 anos ganhei o respeito dele por mim enquanto homem - e tudo mudou. Começou a construir-se uma relação para lá da raiva e da dor e comecei a ver quem era o homem que tinha por pai. Percebi muita coisa que não passa pela cabeça de uma criança e percebi que, afinal, ele era um homem extraordinário. Quando me tornei homem tive ainda mais essa a certeza, mas nessa altura ele morreu e acabei por não lhe dizer muito do que gostaria de ter dito. 

Ninguém é perfeito. Ele não era polido, dizia palavrões, falava alto, não sabia expressar sentimentos (correndo o risco de dar a entender que era era bastante sensível, preferia guardar para ele as suas próprias inquietações, desilusões e medos) e enfiava o guardanapo no colarinho. Mas este homem teve  um dia um sonho, criar um família que tivesse tudo o que ele nunca teve - incluindo um pai que providenciasse para os filhos. 

Amava-nos muito, mas nessa luta cega de ter dinheiro para nos dar-nos uma casa, um curso, um carro e ainda deixar todos bem de vida após a sua morte, esqueceu-se de estar presente e de mostrar que nos amava muito. Quando estava, estava rabugento, cansado, sem paciência. Nas férias era uma pessoa diferente, mas era-lhe mais fácil estar próximo do filho o que os rapazes fazem e que por isso exigia menos esforço. Isto até aos meus 11 anos. Depois reformou-se e tornou-se bem mais calmo.

Os 10 anos que tive com o meu pai depois de termos feito as pazes como pai e filho foram bons. Havia respeito. Eu passei a exigir-lhe muito mais, porque também percebi que ele gostava de me ver lutador. Por isso quando ele morreu, só tinha uma questão: será que ele sabia o quanto eu gostava dele? Por sermos os dois teimosos e por ele não conseguir verbalizar o amor dele eu também achei que teria de fazer igual, apesar de ser capaz de o fazer. Não obstante, uns dias depois perguntei à minha mãe (a pessoa com quem ele era efetivamente capaz de falar sobre tudo) e ela disse que  sim, que ele sabia.

Costumo dizer que não tenho heróis com a excepção do meu pai. É que na realidade ele teve uma vida heroica, de superação, foi primeiro um sobrevivente e depois um conquistador. Embora não dissesse que gostava de mim, ou me desse alguma atenção quando eu era pequeno, cuidou impecavelmente da nossa família e espalhou atos de generosidade por todo o lado. Era um homem bom. 

Há uns dias um amigo disse-me que eu branqueei o meu pai, que não tenho a minha relação com ele resolvida, porque ninguém fala assim tão bem de um pai. Não sei como poderei explicar ao meu amigo, que eu não o branqueei, eu fui (re)descobrindo o meu pai e depois compreendendo o que (re)descobri.

O meu amigo também disse que coloco o meu pai acima da minha mãe. Novamente um erro. A minha mãe não teve a vida heroica do meu pai em grandiosidade de feitos, mas talvez tenha feito a coisa mais grandiosa: a abnegação. A minha mãe tem uma qualidade muito bonita - saber amar. Ama totalmente, incondicionalmente e com dedicação. Amou assim o marido, o pai, os filhos e agora a neta. As pessoas que ama têm muita sorte por ter esse amor que não exige nada e que nutre como poucas coisas.

O meu pai dizia "posso ter feito muita coisa na vida, mas não teria conseguido nada sem a minha mulher que foi o melhor copiloto que eu poderia ter desejado".  A minha mãe foi a "força motriz" do herói, aparentemente em segundo plano, mas o pilar de todas as coisas. 

Não sei como explicar ao tal amigo que apesar da minha mãe nunca me ter magoado e sempre me ter protegido, o meu pai continua a ser a pessoa em que eu gostaria de me tornar. Eu percebi o meu pai e as dores passadas ficaram no passado. Se não o tivesse percebido não o usaria como compasso moral para a vida. Não obstante, deixo sempre uma nota de rodapé, quero ser capaz de amar e ser amado como a minha mãe ama. 

Nem toda a gente que nos ouve (ou que nos lê) compreende exatamente o que queremos dizer. Cada leitura é uma história de acordo com a cabeça de cada um e com as suas experiências de vida. Às vezes penso se por ser tão aberto não acabo, eu, por dar material passível de gerar mal entendidos. Se calhar presto um mau serviço aos meus pais, quando falo nas dificuldades que existiram num certo período da minha vida. 

Talvez deva falar menos (é uma das coisas que tenho pensado ultimamente), talvez as minhas palavras sejam uma espécie de Gremlin - podem gerar a confusão junto de quem não compreenda a sua natureza. Não obstante, uma coisa é certa - seja eu mal compreendido ou não - sou filho de um bom homem e de uma boa mulher que fizeram o melhor que sabiam e podiam para nos fazer florescer. À luz do que sei tive muita sorte.

terça-feira, maio 31, 2022

Verso Silvestre

Não quero morrer de amor - digo - quero viver de amor,

Mas para lá da espessura da madrugada não existem sobreviventes.

quarta-feira, maio 25, 2022

Surpresas

Mudei de departamento no trabalho. Foi excelente, uma vez que estava completamente miserável. Não estou certo de que queira ficar aqui, mas de qualquer forma tenho 4 meses para ver se esta nova experiência funciona. Pelo menos tive a possibilidade de fazer trabalho inteligente nestes 3 dias.

quarta-feira, maio 18, 2022

E vão mais 3

Apesar de ser como achar uma agulha num palheiro e, apesar de uma entrevista de emprego ser mais um confronto de representações da realidade do que própria realidade em si, enviei mais três currículos e seja o que Deus quiser.

Descoberta - Leyla Blue


Decisões

Hoje decidi procurar um psicólogo porque acho que necessito de um apoio médico para lidar com alguns estados debilitantes que tenho enfrentado. Como comentei antes, passei por um processo de depressão no ano passado que deixou sequelas. 

Para lá da brutal insatisfação profissional, não posso dizer que tenho outros problemas de relevo. Tenho estabilidade afetiva, financeira e tenho saúde (exceção para um problema lombar), é por isso estranho que em vários dias eu queira levantar-me da cama sem o conseguir fazer e ser acometido por estados sufocantes em que parece que não existe nada para mim, que não há saídas. 

O problema da depressão major resolveu-se com medicação (terminada há meses), situação que não considero sustentável a longo prazo. Não quero viver dependente de medicamentos, não seria o primeiro nem o último, mas queria ver se conseguindo reprogramar o cérebro a coisa vai lá. 

Lembro-me de até perto de 2018 eu acordar sempre com um sorriso na cara, feliz simplesmente por ter um dia para viver. Por volta dessa altura houve algo que me quebrou (ou foi quebrando). Até sei identificar o que me levou à situação do ano passado, talvez tenha feito más opções por amor/respeito a terceiros. Não tive espaço para ventilar e reprimir nunca foi o meu género.

O ruído foi criando lastro e solidificando. Ao analisar o que tinha corrido mal, comecei a incorrer no erro oposto. Se antes tinha tolerância a mais, comecei a ter tolerância a menos e digo não a tudo aquilo que me parece ter potência suficiente para voltar a levar-me a um estado depressivo. 

Quem me dera que a mente fosse tão difícil (ou fácil) de tratar como um joelho (por exemplo). O que sei é que não gosto destes altos e baixos. Tenho um problema em mãos e esse problema tem de ser resolvido. Espero encontrar a pessoa certa. Pelo menos numa coisa não mudei, não baixo os braços perante nada. Quando caímos levantamo-nos e seguimos a marcha.

quinta-feira, maio 12, 2022

Calmante calórico

Já estava em broa com a falta de capacidade/noção profissional aqui no burgo e fui comer uma torta com creme de ovo. Já estou muito mais calmo.

E vão três

Acabei de concorrer a três vagas de trabalho. Ia concorrer a uma na DGS e desisti porque instituição que ainda usa um formulário de candidatura de há 20 anos e pede o Europass como modelo de CV (sendo fator eliminatória) só pode ser um buraco negro,

Sugado

Hoje até entrei ao trabalho com a alegria dos dois últimos dias ainda incrustada no corpo. É curioso como a meio da manhã já estou cheio de sono. Estar neste tipo de ambiente suga as energias. Às 9h ainda penso que alguma coisa pode acontecer, a partir das 11h já só penso na hora da saída às 17h. 

quarta-feira, maio 11, 2022

Ontem

Ontem fiz 48 anos e tive um dia perfeito. Começou morno, mas ao logo do dia foi ficando cada vez melhor e acabou numa explosão de amor.  Não festejei para lá do tradicional jantar com a família, que insisto em oferecer por saber que é uma momento muito querido da minha mãe. Tenho sorte. Fui abençoado com uma extraordinária família de sangue. Sobrinha e namorado foram responsáveis pelos pontos altos do meu dia. Hoje acordei com alegria no peito, como há muito já não fazia. 

segunda-feira, maio 09, 2022

Amanhã

Amanhã faço 48 anos. Deve ser por isso que os últimos 3 anos têm sido tão intensos existencialmente. Devo estar com uma crise de meia idade. Era muito bom que não passasse dos 50, já começa a enjoar a análise de tudo o que me rodeia e a inquietação. Já vinha um pouco de paz.

O que fazer?

Ao fim de 3 meses no novo trabalho verifico que também não é sítio para eu estar e ser feliz. Em teoria tinha tudo para correr bem. A hipótese de trabalhar em direitos humanos pareceu quase milagrosa, mas a verdade é que depois temos de lidar com pessoas. E vá eu dando voltas na função pública, os problemas acabam por ser muito semelhantes, más lideranças, comunicação deficiente, pequenos poderes, etc., etc.

A maioria das pessoas fica o resto da sua vida agarrada ao seu local de trabalho, porque é cómodo ou por medo ou descrença desconhecido. para mim o desconhecido é isso mesmo 'por conhecer' e se aquilo que eu conheço é fraco e não respeito, tenho de continuar a acreditar que o desconhecido tem algo de bom escondido. 

É possível que não esteja enganado, ou que sim. Perante uma nova oferta de trabalho esta dúvida persegue-me, o meu CV terá 2 sítios onde fiquei  4 meses e isso é mau. Para quem me quer empregar, fica sem confiança. Porque nas entrevistas parte-se sempre do princípio que os problemas estão com os trabalhadores e não com a instituição empregadora. 

Não faço puto ideia do que fazer. Posso aguentar neste marasmo onde não me dão nada (ou dão tarefas desqualificadas) para fazer ou partir. Mas também como estou em mobilidade só seria até final de Setembro.  

Canção espetacular


We've been loving in silence - MARO

The Card Counter - O Jogador

Tinha muita vontade de ver este filme, tido como um dos melhores de 2021, mas tristemente não me cativou. Era suposto haver uma aura de mistério em torno de um homem e o rumo dos acontecimentos no filme acabar por mostrar a verdade sobre esse homem. Quando um filme tem o Martin Scorcese por trás é natural que acabemos por ser mais exigentes. O mistério por detrás do homem não é suficiente, as histórias acessórias à principal não justificam o final do filme, no meu ver. Deixou-me uma sensação de amargo na boca.

12/20

Doutor Estranho no Multiverso da Loucura


Gostei do primeiro tomo desta série (sim porque já vem aí o terceiro filme), mas apesar dos excelentes efeitos especiais ficou ali entre o registo da fantasia e da palhaçada. Não gostei. Quero fantasia, mas sustentável. 


9/20

quinta-feira, maio 05, 2022

True

«Adolescentes e jovens que se acham modernos, hedonistas e libertários por fazer dancinhas sensuais no TikTok não têm ideia da importância de Madonna no passado para que hoje as mulheres e os membros da comunidade LGBTQIAP+ vivam a sexualidade com mais independência e respeito.»

terça-feira, maio 03, 2022

Sensate

Quase 7 anos depois finalmente vi a série «Sensate» da Netflix. Lembro-me da excitação das pessoas com este série na altura em que foi transmitida, mas em 2015 fiquei com um ideia má da mesma porque aquilo que me era relatado era "os gajos bons" e as "cenas de sexo" e depois que eles estavam ligados todos uns aos outros.

Felizmente alguém me convenceu a ver a série e descobri uma magnífica peça de ficção cientifica, em que bonzões e sexo são os menores dos cartões de visita. Fora a parte das teorias da evolutiva é um elogio à representatividade e diversidade (foi atores locais de diferentes países, diferentes culturas representadas sem uma americanização). Fiquei mesmo fascinado. 

sexta-feira, abril 22, 2022

O PCP anda a dar nas drogas alucinogéneas

O PCP sabe que o Sr. Putin não é fascista (nem exerce uma ditadura sobre o povo russo) e que o governo da Ucrânia não foi democraticamente eleito por um povo farto de corruptos e fantoches ao serviço da Rússia.  

Se não fosse, nojento, imbecil e ofensivo eu até era capaz de me rir desta "pérola" de declaração. Que pode ser vista AQUI. 


quinta-feira, abril 21, 2022

Desistir não é uma opção

 Quando estamos a falar de desistir de nós.