Foi um leitor casual do Silvestre que me falou deste livro - não sei se por ter sentido que eu andava, também, à procura de respostas para o sentido da vida. Falou-me do Larry Darrell e eu fui à procura. Encontrei o romance do Somerset Maugham, autor que eu apenas conhecia de nome, e decidi ler quando tivesse liberdade dos afazeres académicos. Acabei hoje, dia de Natal, parece que tudo se conjuga com a data.
Antes de falar da história em si, tenho a dizer que gostei muito do estilo da prosa, a sagacidade do autor traduz-se na forma como narra e nos innuendos que utiliza, tornando cada página numa lição de "profiling" e rigor descritivo.
O livro em si é, na minha opinião, um tratado sobre a natureza humana. O personagem Larry Darrell (que representa a espiritualidade e o desejo pela transcendência por oposição ao restantes personagens que representam os desejos e vontades dos seres humanos "não abnegados") entra numa crise existencial e procura a razão da existência por via do conhecimento e do despojamento, o que é contrastante com a visão teleológica dos restantes personagens cujas ações todas têm um propósito em mente. Larry é o estereótipo da pureza e da liberdade (quase entendida como loucura) e depois temos os restantes personagens que são quase todos anti-heróis. A malícia e a manipulação são ensinadas na sociedade desde tenra idade (o que até me fez pensar no bom selvagem de Rosseau) e as personagens, que não o Larry, agem todas em benefício próprio impulsionados pela sua noção do que é valorizável. Existem interesses pessoais, ganhos a serem tidos em função da lógica da vantagem competitiva em sociedade. Tudo consegue reduzir-se ao materialismo, até mesmo do corpo.
Acho que o livro é muito atual, ou voltou a ser atual neste início de século com a "modernidade líquida" em que tudo é convertido em bem de consumo e toda a identidade é o que se consome. Neste prisma o Larry vai-se desvanecendo, deixa de ter identidade, deixa de ser reconhecível porque, progressivamente, se vai tornando cada vez mais mais "espírito" e menos "matéria". E alguém verdadeiramente livre, é simplesmente visto como louco, estranho, ridículo, desadequado. Não obstante, o Larry torna-se intocável a qualquer tipo de malícia, jocosidade ou mau juízo de terceiros, porque aprende a vibrar acima do 'material'. Pretende apenas ser uma inspiração, um trabalhador da luz, num mundo com pouca.
Tragicamente, a sociedade tem mais atores do tipo "Isabel", "Elliot", "Sophie", "Sommerset" do que do tipo "Larry" e talvez por isso, o final do livro seja tão pouco moralista. Todos são vencedores, todos conseguem o que querem, todos são premiados e o Larry só se eleva como um "estudo de caso" que causa fascínio e admiração.
18/20

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