sexta-feira, abril 24, 2026

Catarina Furtado sobre o caso "Cristina Ferreira e violação múltipla"

Achei o comentário da Catarina Furtado em relação ao caso "Cristina Ferreira" relevante e ponderado, colocando "em conta" o que deve ser tido em conta. É uma reflexão limpa sobre o que significa a responsabilidade de ser uma figura pública e ter poder de influência e um papel social. Não é de todo um ataque o que lhe dá uma força extraordinária. No post que fiz antes sobre este assunto não expus o texto e achei que seria bom ser lido por quem tiver interesse.

Vivemos num mundo onde podemos discordar, mas não podemos atacar gratuitamente as pessoas, podemos expressar a nossa opinião (ao próprio até) mas com educação e civismo. Eu acho - de facto - a Cristina Ferreira uma pessoa machista (acontece culturalmente a muitos em Portugal), mas não irei para as redes dela ofendê-la com insultos. Porque não se trata dela, mas sim do pensamento que ela veicula. 

Há sim o problema da Cristina achar que é, efetivamente, sobre ela, não conseguindo sair do registo narcísico do ataque pessoal e não pedindo desculpas porque não quer assumir a responsabilidade social associada ao seu mediatismo. As pessoas públicas que erram publicamente, que magoam ou lesam ou prejudicam (mesmo inadvertidamente) pedem desculpas. As pessoas que não o fazem apenas por prepotência de assumir que não erram (e estão numa posição de poder influenciar milhares) estão a propagar um modo de pensar, e neste caso a contribuir para um modus operandi social que lesa as mulheres. 

O texto integral:

Partilho hoje a minha opinião, dias depois da polémica, por sentir que não devia reagir a quente a algo que me provoca reações muito acesas. Faço-o, criticando fortemente todo o tipo de insultos gratuitos que se soltam em momentos destes, possibilitados pelo alcance das redes sociais e por uma necessidade estranha e cobarde de quem se quer 'vingar' do mundo dizendo apenas mal e que em nada contribui para a reflexão. Faço-o, sem nenhuma ponta de ódio, mas por vários motivos.

A frase que motivou a indignação coletiva e milhares de queixas na ERC, foi dita por uma colega que tem a mesma profissão que eu, Cristina Ferreira. Embora com estilos, posturas e escolhas profissionais distintas, partilhamos a responsabilidade de ter um microfone aberto para milhões de pessoas. E eu sei o que é ter muita exposição (para o bom e para o mau), mas também sei o que para mim representa essa responsabilidade, que implica uma gestão entre o conteúdo do que estamos a apresentar e uma dose inequívoca de bagagem pessoal que cada comunicador traz: o seu pensar.

Errar em direto acontece, já errei muitas vezes. Pedir desculpa e tentar fazer melhor é sempre uma opção, para a pessoa, para a estação. Mas o que considero importante sublinhar é que o que foi dito (e outras frases do mesmo género em situações diferentes ao longo dos anos) veio de um lugar onde não existe de facto a noção do impacto absolutamente nocivo que pode ter a formulação de uma pergunta. Não é intencional, é estrutural. Há uma postura machista que é abraçada por muitas mulheres, que se dizem não feministas, e é de facto grave quando esse discurso é normalizado, porque isso contribui e muito para a banalização do crime, da violência, da desigualdade de género, e em última instância, da misoginia que grassa na chamada manosfera (machosfera).

Comentar assuntos seríssimos de cidadania e direitos humanos exige preparação, leitura de informação fidedigna e verificação de estudos. Há mais de 25 anos que me debruço sobre estas matérias que nos dizem respeito a todos e a todas nós, que implicam um exercício diário do questionamento, quer como Embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações para a População quer como fundadora da associação Corações Com Coroa. Foram já centenas as histórias reais que ouvi e documentei de raparigas e mulheres cujos direitos são permanentemente silenciados, negligenciados, esquecidos, pisados, violados. A violência com base no género não começa a falhar às mulheres no dia da agressão. Começa a falhar-lhes muito antes.

Vou muitas vezes falar a escolas e vejo que as meninas continuam mais desprotegidas. Sinto na forma como os rapazes normalizam os seus comportamentos que evidenciam retrocessos gigantes e dos quais não têm sequer consciência. Todos temos responsabilidades nisso e os comunicadores e os meios de comunicação social têm a sua quota-parte. Frases públicas ambíguas sobre violência não são só frases infelizes. A linguagem abre espaço, branqueia, legitima, normaliza, e os rapazes deixam de ouvir e de conhecer os limites e desta forma paralisam o crescimento que permite uma sociedade mais igualitária. Os estudos são claros e mostram como a nova geração está recheada de rapazes mais misóginos com ideias arcaicas sobre o papel das mulheres"

As culturas digitais reacionárias e patriarcais estão a construir novas gerações que promovem ideias distorcidas sobre intimidade, consentimento, prazer mútuo, igualdade e liberdade. É por isso ainda mais perigoso que, quando se assiste a um episódio desta natureza, grave, ainda exista quem discuta a forma, o contexto, a interpretação, em vez de se defender com clareza que toda uma sociedade está a sair prejudicada. Na chamada 'vida real' o que testemunho é que as meninas andam cada vez com mais medo e não se 'põem a jeito' quando estão apenas a viver os seus direitos, dizendo SIM ou NÃO quando lhes apetece, esperando respeito. O que está aqui em causa é um exercício de justiça social e o que aconteceu foi um tremendo beliscão à civilização, porque teve um grande alcance. A relativização da violência deve ser sempre confrontada.

Defender a vítima significa garantir que o crime não deve ser nunca normalizado através de uma retórica descuidada ou de falsas equivalências. É preciso ter consciência, empatia e curiosidade, quando se fala sobre a vida dos outros, não deixar que o discurso dos reality shows (que já contribuem também e tanto, infelizmente, para a normalização de comportamentos tóxicos e de manipulação), contamine tudo, alimentando convicções destorcidas do que significa consentimento e empoderamento feminino. A influência negativa de um caso vai muito além do erro de uma pessoa só, por mais influente e mediática que seja: tem o nome das centenas de raparigas e mulheres que sofrem todos os dias. Sei que muitas mulheres pensam assim e essa aparente contradição também me preocupa muito. São sinais culturais, mas a solidariedade deve estar, sem hesitação, do lado de quem viveu abusos inqualificáveis.

Também por isso, a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento é absolutamente essencial (bem ensinada), para combater o que estamos a viver, pelo menos, a pensar com esperança nos próximos anos. Tenho um filho e uma filha, já maiores de idade. Ponho as minhas mãos no fogo de como o meu filho nunca será um agressor porque eu, o pai e o resto da família sempre o educámos como feminista, com tudo o que isso implica de valores. Mas em relação à minha filha, tenho muito medo de que alguma vez, e não por 'descuido' dela, possa vir a ser uma vítima. Tremo só de pensar nisso e também por ela decidi escrever este longo texto",

A violação é desde 2025 um crime público, o que significa que não depende de queixa da vítima. É punida com uma pena de prisão de um a seis anos, que pode ser agravada para três a dez anos. É pouco e continuamos a ver penas suspensas e outras decisões que parecem ignorar o trauma eterno que provoca nas vítimas, a quem prefiro chamar sobreviventes. Quando o são. 

(P.S: Gostava muito que esta minha reflexão, que vem de um sentido de coerência também em relação à minha missão de vida, não fosse erradamente, de forma simplista, irresponsável e inconsequente, interpretada como um ataque pessoal a uma colega de profissão porque, honestamente, não é mesmo. Quero apenas contribuir construtivamente para uma mudança de mentalidades, também no meu meio profissional).





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