segunda-feira, julho 28, 2014

Silvestre: reflexão sobre o corpo

Este é o meu corpo neste momento. Fico a pensar no valor do  corpo, e quanto o valorizo. Quando era miúdo era gordinho e as coisas não eram nada fáceis, bateram-me e humilharam-me diversas vezes por isso, talvez porque em cima disso era tímido, marrão e tinha voz de menina. Não tinha muitos amigos com a excepção dos outros excluídos, que também não eram lá muito bonitos ou eram pirosos ou outra coisa qualquer que os fazia ser desprezados pelos demais. O que eu aprendi desses tempos foi o que é realmente importante. Que o material interno que anima um corpo é o que vale a pena. Quando comecei a ser legitimado pelas pessoas "cool" não sei porquê, mas não me senti assim tão cool. 
 
Hoje tenho um corpo valorizado pelos padrões estéticos das sociedades ocidentais e reparo que estou em contradição interna. Não me reconheço na descrição do meu corpo, nem na valorização do meu corpo (apesar de gostar muito dele). Gosto que as pessoas queiram falar comigo porque tenho um ar simpático, porque tenho um olhar convidativo, uma expressão meiga no rosto.
 
Ontem uma pessoa bastante próxima disse-me que eu era um corpo. Que quando falam de mim num determinado círculo (a bem dizer entre rapazes gay) falam do corpo. Não se fala de que eu sou simpático ou gentil ou até mesmo giro. Não sou nada dessas coisas. Sou carne para canhão. Sou um corpo que alguém gostaria de possuir. Não me fez sentir bem e fiquei na dúvida se isto, de certa forma, não é o equivalente aos tempos da minha infância, mas no outro extremo. Ninguém quer saber quem sou na mesma.
 
Percebo a solidão das pessoas que procuraram a sua projecção com base na beleza física. E percebo que tenho muita sorte em não ser isso para mim. Eu defino-me pelas coisas que sei e pelas coisas em que acredito e tenho um imenso orgulho nisso. Isso é o que eu sou. Não um corpo.
 
O corpo que tento manter são e vigoroso é para ser a casa de algo maior, daquilo que me define para mim. Esse é o lugar do meu corpo, uma casa. O meu corpo é a ostra, não a pérola. E fico muito contente pelos anos em que nada disto era assim e que me fizeram ver onde estão as pérolas nas nossas vidas. As pérolas que mantenho comigo são todas as pessoas que me fazem sentir humilde perante a sua forma de estar e feliz por as ter perto. Elas também com uma casa, que se quer forte e sã, para guardar o essencial.
 
 
 

13 comentários:

Pedro disse...

Há uns tempos (anos), escrevi um post com a mesma ideia: de como a beleza pode ser terrível, em sintonia com Rilke (não o encontro agora nem é importante). E embora concorde em duas coisas, não só que estás com um corpo óptimo e o quão desagradável é sentirmo-nos carne para canhão é que, provavelmente, acaba por ser uma falsa questão. Porque mesmo o melhor corpo pode ser facilmente trocado por outro corpo. Ou seja, na verdade, para o predador pouco interessa o corpo. É apenas mais um troféu, que lhe acalme a solidão e as carências.

Pedro disse...

Isto leva-me a outras duas questões: o que define afinal o "Eu", se não é , pelo menos também, o corpo? E tu, queres que as pessoas se apaixonem pelo quê em ti?

Horatius disse...

Eu costumo dizer que, por ser gordo e pobre, tenho a certeza que as pessoas quando estão comigo (não necessariamente namorado, mas também amigos) é porque realmente gostam de mim. Só tenho amizade e amor para lhes dar e nada mais. E é assim que se faz a "triagem" de quem interessa de quem não interessa...

E ficamos a saber que o silvestre usa underwear da CK xD

Ricardo - Uma Outra Face disse...

Os Gregos é que a sabiam toda. Mente sã em corpo são.

silvestre disse...

@pedro: a dança é a animação do corpo pela música. Acho que deve ser isso mesmo. O corpo é animado por algo que deve ser o que sobressai. Em mim, gosto que me pensem que sou bom tipo :) (espero ser)

Pedro disse...

Bem, entre ser bonzinho e ser bonzão... talvez seja preferível a segunda hipótese! :D

silvestre disse...

@pedro: E porque não um bonzão bonzinho? :)

Unknown disse...

Sou seguidor assíduo do teu blog, muito antes de conhecer o teu corpo :-). A primeira impressão é de alguém simpático, não te preocupes.
Somos nós que escolhemos ser carne para canhão ou não, por isso, mais vale assim.
Além disso, corpo são é também reflexo de mente sã o que é mais uma virtude.

Anónimo disse...

li o texto e so me veio esta expressão à memória:
The world is my oyster

XD

Relaxa lá com isso, essas ideias do "ai k só me valorizam pelo corpo" & Ca, são transversais a toda a gente, a gaja gorda, o gajo baixo com a namorada ramalhuda, o do sinal estranho na testa, a estrábica.. todos temos pequenos defeitos, outros tÊm grandes perfeições, bem ou mal, todos temos um cognome que nos carateriza fisicamente. Agora se o teu círculo de amigos mais próximo se refere a ti como o bonzão do grupo, e os temas principais de assunto são à base de quem anda com quem, ou quem anda a comer quem.. então se calhar.. é altura de fazer amigos novos ;)


m

Anónimo disse...

reparei agora que escrevi ramalhuda.. e imaginei uma gaja com púbicos a fugirem-lhe pelas leggings ahah XD

era mamalhuda :P

m

silvestre disse...

Hey M. Na realidade li mamalhuda em vez de ramalhuda. Só reparei agora pelo teu novo comentário :-p

Tenho um bom círculo de amigos, no círculo de conhecidos é que se passam coisas estranhas... De qualquer forma. O post foi uma reflexão sobre um facto. Já passou.

Anónimo disse...

oh, claro rapaz.. =) e a reflexão foi anonimamente partilhada no blog, e anonimamente comentada por vários anónimos.

Ahh.. a beleza da privacidade partilhada da internet e mesmo assim privada, pk é anónima



m

Namorado disse...

Estás com um bom corpo sim senhor (não fiquei surpreendido LOL), e pelo que li trabalhas para isso para te agradares a ti e não aos outros, o que me parece muito coerente. Para quem te conhece, ou lê o teu blogue, verifica após ver esta foto, que não é um "corpo", é o *****, uma pessoa que pensa, que tem determinado caminho, valores, coerência, etc e que procura ser feliz. É claro que um corpo ajuda em muita coisa, mas não é o principal. O interessante e o ideal é o pacote completo. O resto é demasiado superficial para ser levado em conta (mas atenção que precisamos de alguma superficialidade também!!!), se não soubermos dosear as coisas.