terça-feira, janeiro 19, 2016

A actual geração dos 20 anos

O meu namorado tem 25 anos, mas é produto de uma realidade muito específica e por isso cai numa excepção, contudo a filha da companheira do meu irmão tem 21 anos e para mim é um exemplo cabal do que a malta da minha geração fez dos filhos. Não há dúvida de que, regra geral, são bons miúdos mas é inquestionável a falta de preparação emocional para a vida e a falta de capacidade de sacrifício. É complicado explicar-lhes o que é isto, pois não me parece que consigam compreender (eu já tentei de diversas formas) e vistas as coisas, nós os "mais velhos" não sabemos grande coisa. Por vezes penso que a maioria do pessoal que tem agora entre 40 e 50 anos fez um trabalho excelente em produzir miúdos mimados e/ou infelizes e/ou inadaptados e /ou com uma percepção alternativa da realidade, das relações humanas e sociais. Existem excepções? Muitas. Mas é uma tendência generalizada a de que falo. A classe média (seja ela, alta ou baixa) não fez grande coisa pelas suas crianças. No entanto talvez isso tenha a ver com a própria alteração (e sacralização) do conceito de criança. O problema é que o que fazemos às nossas crianças determinam em grande parte o que essa geração vai ser. A culpa é delas? Não necessariamente, indirectamente é de que os educou/educa. E chega a ser injusto para eles. Nós acabamos por nos queixar de um "produto" do nosso trabalho, forma de estar e valores. Acho que a minha geração estava numa grande trip e educou os miúdos para uma realidade que não é real. E agora são eles que arcam com as consequências quando têm de lidar com "a coisa a sério". O pior é que aos 20 anos, achamos que somos muito adultos e sapientes (eu pelo menos achava que era) e dar a volta não é fácil sem bater umas quantas vezes coma  cabeça na parede. A aprendizagem pela dor devolve (a alguns) o bom senso e a perspectiva real das coisas. Mas podia ser tudo diferente.Diz-se que se chama a isto crescer ou amadurecer. Mas graças à minha geração o caminho da geração dos 20 é cada vez mais longo.

13 comentários:

Miguel R disse...

Sabes, isso de generalizar gerações nem sempre é boa ideia. Tenho 26 anos, e provavelmente n tenho a mesma percepção da vida que um moço de vinte anos. Da mesma forma que alguém de 49 não tem a mesma percepção de um de quarenta. Em termos realistas por exemplo muito provavelmente é mais complicado para mim obter independência do que tu quando tinhas a minha idade. Nós os jovens de vinte anos, temos que nos virar com, toda uma noção que governares te sozinho com o rácio custo de vida atual para ganhos medios é bastante mais complicado. Houve muito na minha geração a exaltação do ensino superior, muito enfatizada pela tua e pela anterior, em que para seres alguém da vida tens que ser doutor. Que não és ninguém da vida sem um curso superior, e que tiras um e estas safo. E depois na realidade, não e assim. Ligas o telejornal e ves as quantidades de jovens licenciados e desempregados. Vivemos também numa altura em que conseguir emprego é uma maratona de requisitos, chegando ao cúmulo de pedirem anos d experiência para estagiar sem remuneração numa empresa, e se para um emprego temos qualificações em excesso para o outro temos a menos, uma espécie de ping pong pela qual muito certamente muitos da tua geração não passaram. Dizer que há meninos mimados e sem noção da realidade hoje em dia é o mesmo que há vinte anos, ou daqui a vinte vão sempre existir e não é necessariamente culpa da geração, talvez agora tenhas mais noção porque tens mais vinte anos de vida no lombo, e experiência de vida que não tinhas há vinte anos

silvestre disse...

@miguelR: Foi a geração antes da minha que criou a crença de um curso superior como sucesso na vida, porque no tempo do meu pai isso era mesmo verdade. Quando eu tirei um curso já não era assim. Os nascidos entre 65-74 que foram os primeiros a usufruir do crescimento pós-ditadura, criaram-se muito mitos de riqueza e grandeza. Quando tirei o curso acreditei no meu pai, mas percebi que precisava de mais qualquer coisa. Ter pelo menos uma média superior a 16 e desenvolver actividades de enriquecimento do currículo. Mas a ideia que se passou era a de que o curso só chegava. E há muita gente que continua a acreditar nisso. Começou a desprezar-se a ideia de não ter curso, mas um bom pedreiro em 2000 já podia ganhar 2000. Um canalizador pede-nos 125 euros para ir à nossa casa desentupir um cano. estes ganham bem mais que muitos licenciados.

Como disse no texto não culpo a geração dos 20 anos. Culpo a minha. E culpa nem é o termo certo. É mais responsabilidade. Nós somos responsáveis pela ilusão e desilusão dos nossos jovens. Foi isso que defendi no post.

Mark disse...

Sem querer tirar o mérito ao teu texto e às tuas ideias, identifico um lugarzito-comum por outro. Acho curiosa a pertinência desta publicação após ter dito no meu blogue que desconheço os momentos felizes e que sou mimado. (risos) Adiante... Gente infeliz, mimada, independe das épocas. Sempre houve. Se o teu namorado é uma excepção, todos somos excepções, porque não há casos iguais. Não há padrões comportamentais.

O dito "mimo" acompanha as alterações sociais. Os pais tiveram acesso à educação, ao conforto. Naturalmente, proporcionam boas condições aos filhos. Qual seria a solução? Tirá-los da escola finda a quarta classe? Pôr-lhes uma enxada nas mãos? Vá, sofram! E nem falo dos (meus) pais, que, felizmente, nasceram nos anos quarenta e cinquenta, tendo acesso a todas as condições. Foram uns afortunados. Estudaram, licenciaram-se. Os (meus) avós também têm estudos. Todos.

Há pessoas bem estruturadas em todo o lugar, independentemente da "classe social". E ainda escapam alguns factores adicionais à tua análise.
Eu não creio que precisemos de sofrer para sermos bem sucedidos. Há quem escape a essa lógica, como bem sabemos. Talvez alguns tenham de sofrer para isso. E talvez alguns não tivessem de sofrer, sofrendo, ainda assim.

silvestre disse...

@mark: Logicamente que um post num blogue quando trata um tema abrangente corre sempre o risco de referir lugares comuns. E há coisas que, nesta questão, são mesmo um lugar comum. Ao nível do comportamento humano, quase "tudo" sempre existiu o que se passa é a alteração da proporção. Não podemos olhar para estas coisas de forma literal. Sempre existiram pessoas mimadas, infelizes, deprimidas, alegres felizes, etc. Contudo as proporções estão radicalmente diferentes.

A solução é ancorar a educação no que é real. O ser humano é capaz de criar uma realidade que não necessita de um suporte autêntico para existir. E as representações de algo quando tomadas como verdadeiras tornam-se verdadeiras nas suas consequências. As pessoas nascidas nos 60/70 em Portugal foram peritas nisto.

O meu post não é acerca de ser bem sucedido. Não é acerca do mercado de trabalho. E vejo que a leitura do mesmo está a ser feita de acordo com a experiência pessoal de cada um e não em sentido lato ou com distanciamento.

Cada pessoa é um caso, mas os casos agrupam-se em categorias por semelhança que dão inteligibilidade à informação. As excepções são mesmo casos específicos cujas características não podem ser agrupadas com facilidade e cujos resultados são incomuns devido à especificidade das mesmas. O caso do meu namorado é assim (pela especificidade do seu habitus e não porque é meu namorado :-p)

Finalizo a dizer que este post é sobre o efeito de uma geração sobre outra. é sobre uma causa. A actual geração nos 20s ou na primeira metade dos 20s não é como é aleatoriamente. É um produto.

O assunto é complexo. E no blogue não farei outra coisa senão deixar a ideia, aquilo que se denomina por problema sociológico. O ensaio sobre o mesmo só poderá existir numa conversa que 60 linhas não explicam :)

Mark disse...

Encontras as excepções no que julgas que se evade da lógica que consideras maioritária. Continuo a duvidar das boas intenções desse agrupamento de realidades distintas per se. Não somos blocos autómatos.

Eu não fiz qualquer menção a "mercado de trabalho". Até porque ser bem sucedido transcende a concretização profissional. Passa pelo bem-estar, pelo ânimo. Foi aí que me centrei. E claro, concluímos que há mais "mimo", evidentemente. As alterações sociais explicam a tendência. Ainda assim, o dito "mimo" pode assumir diversas facetas. Uma carícia, um beijo, a compreensão são manifestações de "mimo", e essas não conhecem "classes sociais".

Crises geracionais e problemas sociológicos não são um inédito. Cada geração tenderá a apresentar argumentos contra e a favor da que a precedeu.

Faltou uma análise ao factor demográfico. Os casais têm menos filhos. Naturalmente, depositam as suas esperanças na pequena prol. Se apostam na sua educação, formação, exigem mais. É justo. Frustram os filhos? É provável. Mas a expectativa criada é inteiramente legítima.

Há condicionantes que merecem ser analisadas e que explicam os raciocínios.

Bom, fica o que penso quanto a esta matéria.

silvestre disse...

Não fizeste de facto, menção ao mercado de trabalho, mas fez o comentário anterior ao teu e presumi incluir todas as referências para fazer sentido num todo qualquer resposta que possa dar.

Olhar para o factor demográfico é fácil. É um dado objectivo, mas a minha questão prende-se com as escolhas subjectivas que têm informado a queda da natalidade. Não creio que a queda da natalidade tenha invocado as escolhas subjectivas. Mas lá está, se existisse um consenso entre investigadores e disciplinas de análise, as soluções para os problemas sociais seriam "canja".

E problemas sociológicos nunca serão inéditos enquanto existirem problemas sociais e sociedade. A história da sociologia faz-se deles.

Eolo disse...

Para a próxima não publiques coisas destas em Mercúrio retrógrado. :D

Miguel R disse...

Quando disseste que uma simpática fatia de jovens vinteaneiros nao tem noção da vida, por muito que culpes uma outra geração sobre o assunto, é normal que as pessoas reajam.
Eu pelo menos reajo.
E quando te falo em mercados de trabalho, emprego e custos de vida, são tudo "noções de vida" coisas concretas que fazem parte da vida que vão exatamente de encontro ao tema do teu post, não tem tanto a ver com um ego ferido como com uma necessidade de perspectiva, sendo q estas a partilhar a tua que como disse anteriormente é fortemente influenciada pela experiência de vida, é perfeitamente normal que baseie o meu comentário na minha vivencia pessoal. Podes culpar mercúrio retrógado se quiseres mas a verdade é que vires falar da geração dos vintes de forma relativamente condescendente - que convenhamos foi, mesmo que seja direccionado para o exemplo geral ao qual te referes ou até a algum concreto como a tal filha não sei de quem, que sinceramente não me recordo já - quando parte dos teus comentadores activos são inseridos nessa exata faixa, é no mínimo ingénuo acreditar que ninguém aqui viria discordar levar a peito ou dar uma outra análise ao que dizes. Ilusões e desilusões todas as gerações têm. Culpar a geração anterior não vai resolver nada,da mesma forma que responsabilizar os nossos avós não resolveu o aquecimento global...

silvestre disse...

@miguelR: Logicamente que podem discordar, dar outra análise. E as discussões são feitas disso. Argumentação e contra-argumentação, é o processo das discussões saudáveis. E no final, até se pode concordar que se discorda e a vida continua igual. Levar a peito é que já não tem de ser assim.

ps. o mercúrio retrógado é outro post, não tem nada a ver com isto.

silvestre disse...

@eolo: Parece que sim :)

Mark disse...

Não sei se será pela nossa parca tradição democrática, de umas dezenas de anos, se pela minha formação, mas eu defendo que é do confronto de posições que nascem ideias de valor. Sei bem que posições contrárias, díspares, são por vezes interpretadas como má vontade ou maledicência gratuita, o que é do mais errado que pode haver. Para comentar com um "Gostei muito!", prefiro remeter-me ao silêncio. Sendo sincero, creio que tanto a minha posição quanto a do Miguel R. enriqueceram a tua análise, sem a diminuir. Aprendemos contigo e tu, presumo, connosco. É isto que eu considero uma blogosfera proveitosa. Enfim, perspectivas.

Bom dia a todos.

silvestre disse...

@mark: não podia dizê-lo de melhor maneira. concordo em absoluto.

N a m o r a d o disse...

Só para dizer que passei por aqui, tenho 35 anos, e que apesar de não ser filho único sou mimado. Mimadinho, vá.