Um tipo que queria trabalhar e a base de dados e o site que tem de gerir não funcionam como deve de ser. A colega que também o poderia ajudar tem o telefone desligado e ele depois da sua improdutiva manhã já um bocado a lixar-se para tudo pensa em ir comer mais cedo. Quem sabe a tarde poderá ser mais simpática (apesar deste céu cinzento horrível). Hoje, o tipo, ainda não bebeu café aparentemente a máquina do trabalho estragou-se, mas como sempre alguém se fechou em copas e não disse nada a ninguém.
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terça-feira, novembro 08, 2011
sexta-feira, março 12, 2010
Bullying
Era uma vez o Jonas, um miúdo que quando era pequeno era gordo e com voz fininha. Chamavam-lhe todo o tipo de nomes: baleia assassina, baleia azul, moby dick, cetáceo, buda, gordo. Outros miúdos mais velhos às vezes davam uns cascudos quando passavam pelo 'gordo', porque os 'gordos' são de fácil sinalização. Os pais não percebiam nada. Aliás, nem o achavam gordo porque achavam bonito uma criança forte. Ele não se aproximava muito dos rapazes e tal como os restantes miúdos mais desvalidos, 'o burro', 'o feioso', 'o trapalhão', etc. Dava-se mais com as meninas sempre mais complacentes para com a diferença.
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Quando chegou ao 1º ano do ciclo foi o auge dos problemas. Havia um miúdo popular que não gostava dele. Formou-se um grupo contra ele. Um dia não aguentou mais e desatou a chorar na aula de matemática. Foi-lhe dito que se a professora de matemática os prejudicasse que ia sofrer consequências. Os pais só sabiam que tinham um filho muito interessado em livros, com boas notas, que não gostava muito de sair de casa e que ouvia música aos berros. O que eles não sabiam é que ele usava a música para berrar e ver se assim a voz engrossava e se livrava daquele tom de pintainho amaricado. Estava-se bem.
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Sorte dos diabos. Cresceu que se fartou e emagreceu com isso. A voz começou a engrossar e mudou de escola. Chegado à nova escola manteve-se discreto e sempre que podia desviava a atenção para outro rapaz que ainda era gordo e que a voz ainda não tinha mudado. Filha da putice ou espírito de sobrevivência? O segundo. Acalmou por fora. Por dentro continuava medroso e nervoso.
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Voltou a ter problemas quando mudou novamente de escola. Turma só de rapazes. Fim da adolescência. Muitos galos no poleiro. Um era particularmente difícil com ele. A pressão era tão grande que um dia, depois de muitos dias difíceis, foi para a escola a pensar que se o tipo gozasse com ele nesse dia lhe deitava as mãos às boca e lhe rasgava a boca à força de braço. Nunca mais abriria a boca suja para humilhar ninguém. 40 minutos da viagem de casa à escola foram passados com essa ideia fixa na cabeça, a soltar toda a raiva de que ia precisar para o fazer. Chegou à escola a fumegar por dentro. O coração aos pulos da adrenalina. Nada. O outro não lhe dirigiu a palavra nesse dia. Teve sorte ele. Que se lixe o outro. O Jonas podia ter estragado a vida por rasgar a boca do imbecil. Ele é que ia ser o agressor e o outro a vítima. Resolveu mudar de escola, de curso. Abandonar esta gente que detestava e que o iria acompanhar na universidade.
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Mudou de escola, de atitude, de identidade. Correu bem. Notas brutais. Universidade. Sucesso. A identidade dupla funcionava. Uma falsa confiança externa, para encobrir a insegurança. Estruturou-se em torno disto, uma existência quase bipolar agora concretizada e iniciada, ainda, na pré-adolescência. Demorou muito tempo até encontrar um centro. Não era um rapaz feliz. Tentava, mas ninguém pode ser feliz quando estrutura a sua vida para agradar aos outros e não ser rejeitado. Mesmo quando pensava que estava a agir para si, o Jonas estava a agir em prol do que os outros podiam pensar de si. Os outros também não o percebiam, haviam coisas que não batiam certo com a imagem que projectava. Foi sendo alvo de mal-entendidos até entrar em crise profunda. Teve de se reduzir a nada. Teve de parar para pensar. Perceber quem era e aprender a gostar de si.
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Só muito tarde a história se resolveu. O Jonas lá acabou por fazer a sua paz interior, por saber quem era e gosta de si. Não aceita merdas de ninguém. Tem um corpaço, um vozeirão e não aceita merdas de ninguém. É feliz e bem resolvido consigo. Se precisar fecha o punho num segundo (seja em sentido lato ou literal) para se defender e defender quem precisa de uma ajuda. Só há uma coisa nunca conseguiu ultrapassar, o medo de voltar ser gordo. Foi assim que tudo começou.
segunda-feira, abril 07, 2008
Era uma vez...
Era uma vez o Marco. Nascido numa família de classe média, era o filho do meio de 5 irmãos. Ele não era nem alto nem baixo, nem bonito nem feio, nem gordo nem magro, nem muito calado nem muito falador. Em tudo o Marco era mais ou menos. Na sua vida, nas suas acções, nada saía da média. Ninguém reparava no Marco porque ele era sempre assim-assim. E para ele era indiferente porque nunca foi nem muito interessado nem muito desinteressado por nada. Certo dia o Marco olhou para si e viu que já era um homem feito. Nunca nada tinha sido fácil ou difícil na sua vida, nem bom nem mau. Percebeu então que era único, nunca se tinha ouvido falar de alguém tão médio e tão constante nessa medianidade. Este pensamento transformou para sempre a sua vida nem interessante nem desinteressante. Era tão único. Quando percebeu que ninguém era como ele, nunca mais ninguém olhou para ele da mesma maneira. A sua perspectiva do mundo exterior mudou e o mundo exterior mudou com ele.
sexta-feira, novembro 09, 2007
Era uma vez...
Era uma vez a Estela. A Estela conheceu a Mara. Um amor que veio de dentro para fora. Quando o que cada pessoa quer ouvir encaixa com que outra pessoa tem para dizer, dá-se uma explosão. Iniciou-se uma paixão mais veloz que o vento, mais rápida que um raio. Choques meteóricos e relâmpagos incandescentes cruzaram os céus no dia em que trocaram o primeiro beijo. Um dia, talvez erradamente, ambas acharam que não mais faziam a outra sentir estrelas. E foi assim que deixaram as estrelas cair do seu céu. Um céu sem estrelas. A Estela e a Mara ficaram sem luz no céu conjunto que partilhavam. Mas se elas pensarem bem, não têm razão para ficar tristes. Às vezes há fenómenos a que se chamam efemérides. São coisas muito especiais, que têm poucas probabilidades de acontecer, mas que acontecem numa dada altura por um motivo muito forte.
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A meu ver, a Estela e a Mara são como duas estrelas. A estrela do norte e a estrela do sul. Por alguma razão cósmica elas encontraram-se para desempenhar uma função muito importante na vida da outra, mesmo não sendo para sempre. E apesar de ambas não terem conseguido viver no pólo oposto do qual faziam sentido, tenho a certeza de que as duas, cada uma em seu pólo, vão poder e querer continuar a brilhar para a outra. A vida de cada uma mudou por influência da outra. Isso nunca poderá ser apagado.
segunda-feira, setembro 17, 2007
Era uma vez...
Era uma vez a Sara. A Sara cresceu no meio de muita gente. Tanta gente à sua volta. Tanta gente e a Sara sempre sozinha. A Sara tinha uma sensibilidade diferente. Não conseguia comunicar, não conseguiam compreendê-la porque ela era diferente. Era muito sensível e ninguém conhecia a sensibilidade dela e isso tornava as coisas mais difíceis. A Sara cresceu sozinha e a sentir-se culpada. Sozinha porque ninguém percebia o que ia na sua cabeça e no seu coração. Culpada, porque a sua família a amava muito. Ela sentia-se culpada pela sua família não saber amá-la como ela precisava. A culpa era da Sara, pensava ela. A Sara sentia-se cada vez mais sozinha e mais culpada. Tão culpada que fazia tudo para agradar às pessoas que a rodeavam, mas cada vez mais sozinha e mais revoltada. Quanto mais revoltada, mais culpada e tornou-se vítima de um ciclo vicioso. A Sara deixou de gostar de si. A Sara deixou de se amar. A Sara deixou-se para trás. Uma vez apareceu alguém que quis amá-la, mas a Sara vive alienada. A Sara não vive cá. A Sara não quer pensar. A Sara não aguenta pensar. Quando é obrigada a pensar a sua cabeça vaza. O seu espírito fica vazio e os seus olhos vidrados. A Sara não tem paz. A Sara é da guerra, a Sara vive uma guerra dentro de si e deixou escapar esse amor. Cansada de tanta guerra a Sara baixou as armas e deixou-se embalar por mãos que a magoaram. A Sara ficou com mais raiva dentro de si, fruto de um desespero contundente. Ela tornou-se cada vez mais um cacto, pronta a picar sem dó quem lhe tenta chegar à polpa doce e macia. Como é que alguém com tanto amor, alguém que é matéria viva de amor, alguém que só pensa em amor, tem tanta raiva. A Sara é perigosa. É perigosa porque é honesta. Não esconde que quer amar, não esconde que foi feita para amar. Ela não sabe ser amada. A Sara foge, a Sara foge dela. Habituou-se a pensar que a culpa é toda sua. A Sara não se aguenta. A Sara não aguenta tanta culpa. Há quem lhe tente ensinar a gostar de si. Se eu a visse dava-lhe um grande abraço e dizia que está tudo bem. Só isso. Se a virem tentem ensiná-la a gostar de si. Ela não sabe pedir ajuda. É muito desajeitada. Está cansada e a raiva vem com muita facilidade. A Sara tem um sorriso bonito. A Sara faz 30 anos. É muito tempo, muitos anos a sentir culpa, muitos anos a acreditar que ninguém a consegue ver realmente. Se a virem não a deixem fugir. O mundo era um bocadinho melhor se um dia a Sara vivesse entre nós. Todos os dias. Plena. Ouvi dizer que alguém ama muito a Sara e que parece tem realmente uma ideia dela. Ela é terrivelmente desconfiada. Da minha parte, se a vir, dou-lhe um grande abraço e digo que está tudo bem que desta vez ela pode baixar as armas. Ninguém a vai magoar. Está tudo bem Sara, está tudo bem. Descansa e sê feliz.
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